Comunicação, Política, o Sujeito e o Predicado

"O universo não é uma idéia minha. / A minha idéia do universo é que é uma idéia minha. / A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos. / Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos / A noite anoitece concretamente / E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso." Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

Vamos começar este texto com uma breve e resumida simplificação das aulas de português sobre análise sintática: uma oração possui termos, chamados essenciais, que são o sujeito e o predicado. Sujeito é a pessoa (ou objeto, ou assemelhado) de quem ou do qual se fala algo. Predicado é este algo falado sobre o sujeito. Assim, na frase "Marcelo é democrático, humano e moderno", temos: o sujeito é Marcelo e o predicado é todo o resto (ou algo assim).

Imagem e identidade
Pois bem, e onde entra a comunicação e a política nisso? Se você é do Tocantins e acompanhou as eleições municipais na capital, Palmas, sabe do que estou falando, ou querendo falar. No processo de construção da imagem, que muitíssimo se utiliza das técnicas de comunicação, quanto mais próximo do real for a imagem de uma pessoa ou produto, mais chances de o pacote (mensagem e adendos) ser assimilado positivamente. No caso de produto, mais chances de venda e satisfação do cliente. No caso do político, mais chances contar com a simpatia do eleitorado e de obter os tão desejados votos.

Quero dizer com isso, obviamente, que a imagem da pessoa e a identidade da pessoa (ou produto) não são a mesma coisa. O produto (ou pessoa) com suas características, qualidades e defeitos, existe concretamente. Se Marcelo é um sujeito humano, democrático e moderno, ele é assim e pronto. Não precisa se esforçar muito pra demonstrar estas qualidades. Isto faz parte da sua identidade, do que ele, o sujeito Marcelo, de fato é.

Se a Marcelo falta um ou mais destes atributos, mas as pessoas, por alguma razão, pensam que ele os possui a todos, significa que a imagem que as pessoas têm dele é diferente do que ele realmente é, de sua identidade. Por outras palavras, o sujeito Marcelo não é bem o que as pessoas pensam que ele é. Vai ter que se esforçar bastante pra convencer as pessoas daquilo que ele não é e, eventualmente, pode cometer um ato falho, colocando todo o trabalho de construção de imagem a perder.

Como assim?
"Marcelo é democrático, moderno e humano". Ora, o predicado afirma que o sujeito é isso e aquilo e aquilo. Mas, e se ele não for e as pessoas descobrirem que o predicado é falso? Todos vão ver que a imagem que tinham de Marcelo é mentirosa, falsa, ou, pelo menos, não é uma verdade tão verdadeira. Vão ver também (que a identidade d)ele é diferente do que se pensava. Se o predicado for mentiroso, ou falso, ou não for uma verdade tão verdadeira, uma hora ou outra a real identidade do sujeito aparece e então sua imagem fica seriamente abalada.

Resumindo a ópera: se uma empresa diz que trata bem os funcionários e é socialmente responsável, ou se um político diz que é moderno, democrático e humano, é melhor que eles estejam falando a verdade (ou algo bem próximo disto). De outra forma, cedo ou tarde, seus belos predicados podem se tornar um sujeito nada agradável. E se uma mentira contada repetidas vezes torna-se verdade, imagina a verdade sendo espalhada aos quatro ventos!

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